O RPG de ação Diablo 4, conhecido mundialmente por seus combates brutais, visual sombrio e atmosfera infernal, recebeu uma versão bastante diferente na China. O jogo, lançado originalmente em 2023 pela Blizzard Entertainment, chegou ao mercado chinês em 2025 com modificações severas que alteram significativamente sua identidade visual.
De acordo com relatos recentes e capturas de tela divulgadas por sites especializados, a “versão chinesa” de Diablo 4 teve todo o sangue removido e substituído por uma poeira acinzentada, além da exclusão de símbolos tradicionalmente associados à morte e ao ocultismo — como crânios, ossos e representações demoníacas. O resultado é uma versão “limpa” e visualmente mais branda de um dos jogos mais sombrios da história recente dos videogames.
Contexto da censura e retorno da Blizzard à China
A censura ocorre após um período turbulento nas relações entre a Blizzard e o mercado chinês. Em 2023, a empresa norte-americana deixou o país após o fim do acordo de distribuição com a NetEase, o que resultou na suspensão de títulos populares como World of Warcraft, Overwatch e o próprio Diablo.
No entanto, em 2024, a Microsoft — que havia adquirido a Blizzard — e a NetEase firmaram um novo acordo, permitindo o retorno dos jogos ao território chinês. Em julho do mesmo ano, Diablo 4 foi finalmente aprovado pela Administração Nacional de Imprensa e Publicações da China (NPPA), o órgão que regula o conteúdo de jogos e mídias no país. Essa aprovação, contudo, veio acompanhada de uma série de exigências que resultaram nas mudanças visuais e temáticas agora conhecidas.
Como ficou o jogo após as alterações
Jogadores e jornalistas que tiveram acesso à versão chinesa relataram diferenças notáveis logo nos primeiros minutos de gameplay. As cenas de combate, tradicionalmente marcadas por jorros de sangue e fragmentos de ossos, agora apresentam um efeito de poeira escura no lugar do vermelho vivo.
Chefes e criaturas demoníacas também passaram por uma reformulação visual. Um exemplo emblemático é a “Morte Errante”, um dos chefes mais icônicos do jogo, que originalmente era composta por ossos e almas em decomposição. Na versão chinesa, o personagem foi completamente redesenhado com pedras e fragmentos minerais, perdendo boa parte da aura macabra que o caracterizava.
Além disso, diversos cenários foram suavizados, com a substituição de decorações macabras — como corpos pendurados, altares sangrentos e ruínas cobertas por esqueletos — por elementos neutros, como pilares, rochas e símbolos abstratos.
Motivações culturais e regulatórias
Embora a Blizzard não tenha se pronunciado oficialmente sobre as alterações, especialistas apontam que as mudanças estão relacionadas às diretrizes chinesas de conteúdo digital. O governo da China mantém regras rígidas quanto à exibição de sangue, morte e elementos sobrenaturais, considerados “promotores de superstição” e “contrários à harmonia cultural”.
A NPPA, órgão responsável por aprovar o lançamento de jogos, é conhecida por impor restrições severas a conteúdos violentos, religiosos ou místicos. Jogos populares como PUBG, Fortnite e League of Legends também já passaram por censura local, com a remoção de sangue, crânios e até referências a fantasmas — temas que entram em conflito com as normas culturais e ideológicas do país.
De acordo com analistas do mercado de games asiático, a censura de Diablo 4 reflete não apenas o controle estatal sobre a mídia interativa, mas também uma tentativa de adaptar o jogo a um público local que, segundo o governo, deve ser protegido de conteúdos “perturbadores” ou “desrespeitosos à vida e à morte”.
Reação da comunidade e impacto na imagem do jogo
A comunidade internacional de jogadores reagiu com surpresa e certa ironia diante das mudanças. Em fóruns como Reddit e no site WOWHead, diversos fãs expressaram indignação, afirmando que o jogo “perdeu sua alma” e se tornou “uma versão higienizada de um pesadelo”.
Outros, porém, reconheceram que a censura era previsível. “A Blizzard sabe o que precisa fazer para operar na China. Sem essas mudanças, o jogo simplesmente não seria aprovado”, comentou um jogador em uma discussão online.
A versão ocidental de Diablo 4 permanece inalterada, mantendo toda a estética sangrenta e sombria que define a franquia desde sua estreia em 1996. No entanto, a discrepância entre as versões levanta debates sobre liberdade criativa e a influência política no desenvolvimento de jogos globais.
A censura chinesa e o futuro dos games internacionais
A situação de Diablo 4 não é isolada. Outros grandes títulos já passaram por modificações semelhantes para entrar no mercado chinês. Resident Evil, Call of Duty e até Final Fantasy XIV tiveram cenas alteradas ou removidas por conter sangue, religião ou referências a mortos-vivos.
Especialistas em indústria afirmam que essa tendência deve continuar. A China representa um dos maiores mercados de games do mundo, e as empresas frequentemente optam por modificar seus produtos em vez de arriscar uma proibição completa. “A censura é o preço de acesso ao público chinês”, afirma o analista de mídia digital Chen Wei, em entrevista a portais locais.
Por outro lado, há quem veja o fenômeno como uma ameaça à integridade artística dos jogos. “Quando você altera os símbolos centrais de uma obra como Diablo, está mexendo com o próprio DNA do jogo”, comentou o crítico independente Marcus Hall, em um artigo recente.
A censura da versão chinesa de Diablo 4 expõe o delicado equilíbrio entre os interesses comerciais e a liberdade criativa. A Blizzard, agora sob o guarda-chuva da Microsoft, precisa conciliar o desejo de alcançar milhões de novos jogadores com as exigências de um governo que controla rigidamente o conteúdo de entretenimento.
O resultado é um Diablo 4 que, embora tecnicamente o mesmo jogo, oferece uma experiência radicalmente diferente — menos sangrenta, menos sombria e, segundo muitos fãs, menos fiel à essência do inferno que o tornou lendário.


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