Ao longo dos últimos anos, a trajetória do Xbox se tornou um verdadeiro estudo de caso sobre como uma das maiores potências da indústria dos videogames pode enfrentar um colapso gradual. O que antes era símbolo de inovação, força e exclusividade, hoje parece se transformar em um projeto de sobrevivência. O Xbox Game Pass, serviço de assinatura que prometia revolucionar o mercado de jogos, enfrenta agora uma crise de identidade e de sustentabilidade financeira.
De acordo com um relatório recente publicado pelo investidor e analista Joost van Dreunen, cofundador da SuperData Research, os números do Game Pass mostram um cenário alarmante: o crescimento de assinantes estagnou e as perdas com lançamentos “day one” chegaram à casa das centenas de milhões de dólares.
O declínio do império Xbox
Nos últimos anos, a divisão Xbox da Microsoft viu sua influência diminuir consideravelmente. As vendas de consoles caíram, as franquias exclusivas perderam força e a recepção crítica dos títulos mais recentes foi morna. O que antes sustentava a identidade da marca — como Halo e Forza — agora também chega ao PlayStation, marcando o fim definitivo da era das exclusividades.
A Microsoft parece ter abandonado a disputa direta com Sony e Nintendo, optando por uma estratégia mais ampla: transformar o Xbox em uma plataforma multiplataforma e se consolidar como uma grande distribuidora de conteúdo digital, em vez de focar na venda de hardware.
Mas nem tudo tem saído como o planejado. O Game Pass, considerado o principal pilar dessa nova filosofia, começou a dar sinais preocupantes de desgaste.
O efeito colateral dos lançamentos “day one”
Quando o Call of Duty: Black Ops 6 chegou ao Game Pass no lançamento, a expectativa era de um aumento significativo de assinantes e de receita. No entanto, o que se viu foi o contrário.
De acordo com insiders do Xbox, a Microsoft perdeu centenas de milhões de dólares ao incluir o jogo no catálogo do serviço desde o primeiro dia. Isso porque muitos usuários assinaram o Game Pass apenas por um mês, jogaram o título e cancelaram a assinatura logo em seguida.
O resultado foi uma combinação desastrosa: perda de vendas diretas de um jogo que custaria R$ 300 a R$ 350 e a evasão de assinantes eventuais que não se tornaram clientes recorrentes.
Esse fenômeno se repete com praticamente todos os grandes lançamentos da empresa. Títulos como Starfield, Avowed, Age of Mythology Retold e The Elder Scrolls IV: Oblivion Remaster geram picos de assinaturas no mês de estreia, mas o interesse cai drasticamente nas semanas seguintes.
O Game Pass, portanto, deixou de ser uma plataforma de fidelização e passou a funcionar como uma locadora digital moderna, onde o jogador “aluga” o acesso a um jogo caro por um preço simbólico e depois abandona o serviço.
Dados revelam uma queda preocupante
O relatório divulgado mostra uma linha do tempo de 12 meses com picos de assinaturas correspondentes ao lançamento de grandes jogos, seguidos por quedas bruscas.
Durante o lançamento de Call of Duty: Black Ops 6, o Game Pass chegou a registrar 300 mil novos assinantes semanais. Poucas semanas depois, esse número despencou para menos de 50 mil.
Entre 2020 e 2023, o serviço cresceu rapidamente — de 15 milhões para cerca de 33 milhões de assinantes. Porém, entre 2024 e 2025, esse número praticamente estagnou em torno dos 35 milhões, indicando o esgotamento do modelo atual.
A situação se agravou em outubro de 2025, quando a Microsoft anunciou um aumento expressivo no valor das assinaturas. O plano que antes custava cerca de R$ 50 passou a ultrapassar R$ 90, gerando forte rejeição da comunidade e uma nova onda de cancelamentos.
O dilema da Microsoft
O Game Pass é, sem dúvida, um dos serviços mais vantajosos para o consumidor, oferecendo acesso a centenas de jogos por um valor fixo mensal. Mas do ponto de vista empresarial, o modelo se mostra cada vez mais insustentável.
Produzir jogos AAA de grande orçamento custa centenas de milhões de dólares, e o retorno obtido com assinaturas intermitentes não cobre os custos. Sem crescimento contínuo e sem novos assinantes fiéis, a roda financeira que sustenta o Game Pass para de girar.
Para títulos independentes e de médio porte, o serviço ainda é vantajoso — tanto para os desenvolvedores, que ganham visibilidade, quanto para a Microsoft, que paga menos por licenças. Mas para produções de grande escala, como Call of Duty e Starfield, o prejuízo é evidente.
Fim da era Xbox?
O sentimento entre a comunidade gamer é de que o Xbox, enquanto console, está chegando ao fim. Com o avanço da estratégia multiplataforma da Microsoft e os planos de levar Halo e Forza ao PlayStation, muitos fãs consideram que a marca perdeu sua identidade.
O Xbox pode sobreviver apenas como serviço digital — um ecossistema de jogos por assinatura semelhante à Netflix —, mas o console físico parece estar com os dias contados.
Enquanto isso, a Microsoft enfrenta demissões em massa, fechamento de estúdios e cancelamento de projetos. O futuro do Game Pass depende de uma reinvenção profunda — seja reduzindo custos, reformulando planos ou redefinindo o foco da marca.
O que está claro é que o sonho de transformar o Xbox Game Pass no “Netflix dos videogames” está cada vez mais distante. E talvez, no fim das contas, o maior erro da Microsoft tenha sido acostumar o público a pagar pouco por jogos caros.


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